Reticências

na hora não muito precisa de 14:53

10.7.09

"Estão vendo? De que era mesmo que eu estava falando? Ah! Era dos papéis escritos, extraviados, esquecidos. Quem sabe lá como seriam bons! Quanto a este, que tive o cuidado de não perder, o melhor será colocar-lhe no fim os três pontinhos das reticências...Ninguém sabe ao certo o que querem dizer reticências. Em todo caso, desconfio muito que esses três pontinhos misteriosos foram a maior conquista do pensamento ocidental..." (Mário Quintana)


Sabe, eu leio uns textos antigos meus, seja do Enfins, seja do extinto Minigravador, e é incrível o número de reticências que eu usava. Poucas frases terminavam com ponto final. Acho que as reticências davam um ar de vaguidão, às vezes de um modo literário, e às vezes porque eu nunca fui de dizer frases muito concretas. Ou então as reticências eram um sinal de incerteza, ou de quem fala uma coisa da qual se arrepende no mesmo segundo que termina de falar... sabe?

Reticências eram um hábito por aqui. Hoje, relendo os textos, me imagino contando a história de outro jeito, apenas omitindo dois pontos do final de algumas frases. Ainda acho que aqueles três pontinhos possuem uma carga literária muito forte. Não tenho certeza do porquê, e se alguém tiver uma teoria tão absurda sobre as reticências, favor apresentá-la nos comentários.

E como eu não pensei em nenhuma forma reticente de terminar esse texto, ponto final. Que comece a discussão literária. Ou não.

Por favor, diga

na hora não muito precisa de 05:08

1.7.09

Por favor, diga que fui devoto à música. Diga que fui devoto à literatura. E que fui devoto às pessoas, mesmo quando tudo apontava para não ser.

Diga que as constantes dores na coluna e no joelho me impediram de correr mais. E que as constantes dores de cabeça e de coração me impediram de querer mais.

Diga que me arrependo do que deveria me orgulhar. E que me orgulho de tudo que deveria me arrepender.

E, claro, diga que não fui o melhor. Que certamente não fui o melhor. Que estive e estou longe de ser o melhor. Mas diga que tentei. E que ninguém pode dizer o contrário.

Diga que acreditei pelo menos uma vez em mim. E que acreditei até deixar de acreditar. Em tudo.

Diga que sorri, porque sorrir é a melhor armadura para a vida. Diga que precisava de proteção. Mas não diga que chorei. Não acreditariam.

Diga que amei, incondicionalmente, mesmo quando o amor deixou de ser condição. E diga, é importante dizer, que deixei para desistir apenas em último caso, mesmo quando depois descobriu-se que não existia motivo para desistir.

Mesmo assim, diga que vivi. Que continuo vivendo, e que viverei, mesmo que não haja um propósito para isso.

E diga que eu sinto muito.


"I will not give in, but if I do, remind me of this. Remind me that once I was free, once I was cool, once I was me. And if I sat down and crossed my arms, hold me until this song knock me out. Smash out my brains if I take the chair and start to talk shit. If I get old, remind me of this, that night we kissed and I really meant it. Whatever happens if we're still speaking, pick up the phone and play me this song." ("A Reminder", Radiohead)





(na tag está escrito "Literariedades". que fique bem claro.)

Hoje

na hora não muito precisa de 05:00

24.6.09

Hoje o mundo amanheceu repleto de um cinza que quase me fez sorrir. Mas não seria um desses sorrisos amarelos, essa máscara da boa falsa convivência que resolve todos os problemas e faz parecer que está tudo bem. Hoje as nuvens cobriam o sol, e pareciam cobrir também todas as más lembranças, e todas as boas lembranças que também se tornam más justamente por serem apenas lembranças. Hoje foi um daqueles dias em que todos reclamam da chuva, e do vento, e do frio, e da vida. Hoje eu não tive motivos para reclamar. Hoje eu tentei esquecer todos os dias em que eu falhei em tentar esquecer, e todos os dias em que a memória de um passado mal aproveitado me forçava a vista e me cegava, como a luz do sol que faz as pessoas não reclamarem da vida.

Mas não consegui. E a falsa esperança de um quase é ainda mais torturante do que a certeza de que nada será como antes.

Cada Vez Mais Eu

na hora não muito precisa de 01:37

19.6.09

Não pode ser considerado um vídeo oficial, mas enquanto o Youtube não mandar retirar, eis nosso primeiro clipe:



Diálogo

na hora não muito precisa de 14:20

16.6.09

- Eu tenho medo de ficar cego.

- Eu também.

- Não, eu falo sério.

- Você não tem motivos pra isso.

- Pra falar sério? Escuta aqui Luísa, quantas vezes eu já te disse...

- Não tem motivos pra ficar cego, Alan. Quantas vezes EU já te disse pra escutar o que eu falo até o final?

Depois você fica aí, chorando a...

- Ta, ta, chega. É só que eu tenho medo de ficar cego.

- Mas você não tem motivos para isso!

- E que motivos teria eu pra te contar sempre a verdade?

- Não é essa a questão, Alan. O problema é que...

- O problema é que você nunca deu importância pros meus problemas, Luísa.

- Então me conta, de onde surgiu essa idéia de ficar cego?

- Não é de ficar cego, é de ter medo de ficar cego.

- Eu tenho medo de ficar grávida.

- Não desvirtua, Luísa!

- Não, eu falo sério.

- Você não tem motivos pra isso.

- ...Pensando bem, é verdade. Não tenho motivos pra isso.

- ...

- ...

- Você está grávida, Luísa?

- E você está cego, Alan.





(postado originalmente no Enfins e escrito em parceria com a Munny, que tem um ótimo blog, e que vocês e eu não temos permissão para ler =P)

(e aí, tem visitado o PdC com frequência?)