Como poucos sabem, moro em um bairro que digamos, não é muito conhecido pela sua paz e segurança, principalmente depois da meia-noite.
Como menos pessoas ainda sabem, gosto de jogar futebol. Não sou dos mais habilidosos com a bola nos pés, e nunca tive irmãos pra jogar, o que me garantiu uma posição quase consolidada e unânime de goleiro entre meus amigos.
Posto isso, ao primeiro causo:
Estava eu, voltando pra casa depois de mais um dia de aula, por volta das 23:30, quando um sujeito malcheiroso e com os olhos bem vermelhos, vem na minha direção e diz: "vamo lá meu irmão passa a grana celular passa tudo agora meu velho nao to brincando nao to com uma faca aqui te furo se eu quiser passa tudo agora".
Calmo, disse a ele que não tinha mais dinheiro, que só queria ir pra casa, que estava voltando da aula e que nem celular eu tinha (ok, essa última foi uma mentira. Mas o cara estava chapado mesmo, eu ganharia dele na corrida, não?)
Ele continuou com a sua falatória sem vírgulas até que olhou pra minha cara, parou, abriu um sorriso desdentado e perguntou: "GOLÊRO?!"
Sim, aquela criatura já havia jogado bola comigo, nos meus fins de semana de ócio, na praça que fica atrás do prédio onde eu moro. Entrando na onda, respondi: "Sim?!"
E daí ele me cumprimentou, pediu desculpas, mandou eu seguir e falou que eu podia caminhar tranquilo a essa hora por aqui que "por aqui tu tá limpo irmão nem esquenta que aqui é minha área".
Então tá.
Já essa foi neste ano:
Eu havia jogado bola nessa mesma praça sábado retrasado com o que os meus amigos chamam de "bonde". Nunca entendi o que era um "bonde", e porque eles eram tão ameaçadores. Mas enfim. Joguei num time com quatro moleques mais novos que eu, todos vestidos com roupas da Nike e da Adidas, com tênis caríssimos (caso não fossem piratas) e óculos por cima do boné. Todos com correntes, bermudas quase na altura do joelho e um jeito de caminhar muito peculiar. Então isso era um bonde?
Joguei no gol como sempre jogo, e nosso time ganhou. Modéstia à parte, só ganhamos por minha causa, mas não vamos entrar nestes méritos.
Na outra semana, novamente voltando pra casa, novamente pelo mesmo caminho, novamente no mesmo horário, vejo um grupo de uns cinco ou seis guris vindo juntos na minha direção. Atravessei a rua (porque se for só um eu encaro, mas cinco ou seis é sacanagem) e continuei caminhando, até apertei um pouco o passo, quando ouço um berro: "Ô MEU! Ô MEU!!!"
Olho pra trás, meio assustado, sem parar de caminhar, pensando que agora já era, perdi a mochila, celular, dinheiro que eu não tinha, se bobear até as calças, quando reconheci o cara que havia gritado. Depois reconheci metade do grupinho mal encarado. Era o bonde.
"E aí meu beleza?"
Respondi o meu tradicional "Oooopa, e aê" usado para momentos como esse e segui meu caminho.
Nunca imaginei que coisas desse tipo aconteceriam comigo alguma vez. Já fui assaltado outras vezes, já tive até arma apontada na minha cara. Mas chegar num ponto em que a gente deixa de ser assaltado porque é considerado amigo desse tipo de gente, nunca imaginei. Já tenho até um nickname: Golêro. Já que boa parte do pessoal daqui não sabe meu nome...
...Então tá.
3 comentários:
Me perdoa por eu estar me matando de rir com a tua "desgraça que não é desgraça"?!
Papai sempre me disse que devemos manter boas relações com todos, de milionários a meliantes.
Certa feita,um mano treta veio me assaltar. Lembrando do conselho do véio, fiz amizade com o cara. Ele me ofereceu cigarro.
Vida loka, mermão.
desculpa, mas eu tive que rir
OIEEAIUHAEIUHEAIUHIUEHEIUAEIUH
100pre na 1000dade dos meu ta ligado
IUHIUHEAIUHEAIUEAH
V1D4 L0K4 N4 V314
eaiuhieuahiueah
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