Anos depois, ao purgatório, à fila do desmonte, a imagem e a verdade do que havia acontecido naquele dia insiste em não abandonar meu pobre e inverossímil cérebro de lata. Só um de nós consegue visualizar o nosso sofrimento, o nosso desespero, a nossa inutilidade repentina. Aquela foto decretou o meu fim, e o de todos os meus entes queridos. Entramos para a História (aquela com letra maiúscula, que infelizmente é a mais contada) como culpados, e pior - derrotados. E a desilusão aumenta ao pensar que a nossa derrota não se deu por motivos transcendentais, sobrenaturais e inexplicáveis. Estes seres inferiores, que insistem em dizer que deram vida à nossa raça, que nos obrigam a cometer e liderar os piores delitos já contados pela História com letra maiúscula, foi um destes seres, os seres humanos, e talvez o mais humano de todos que já passaram por este mundo, que nos imobilizou. Que nos deixou perplexos com tanta humanidade, um dos poucos atributos que não nos foi conferido.
Mas eu, eu não me interesso pelo que a História conta. E a minha história (essa sim, rebaixada a substantivo comum) também não interessa a ninguém. Resta-me agora, em meu metafórico leito de morte, aguardar pelo desmanche dos meus órgãos, na esperança de que, um dia, eles sejam reaproveitados em uma próxima geração, na qual talvez um de nós seja lembrado como herói.

(Texto escrito para aula de Produção de Narrativas Ficcionais da Faculdade de Letras/PUCRS)
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