3.5.10

O Último da Fila

Não vi nada. Naquele momento, não vi nada. Lembro-me de muito pouco. Lembro-me dos meus três irmãos parados, estáticos, à minha frente. Lembro-me do barulho, do ruído que era superior até ao meu próprio coração quando ligado. Colado às costas do meu irmão, tentei perguntá-lo o que estava acontecendo, mas meus sinais não foram interpretados por ele. Tentei dar a volta, fazer a curva, mas, sabe-se lá o porquê, estava tão imóvel quanto eles. Era como se alguma força sobrenatural (e também, sabe-se lá o porquê de eu pensar nisso agora, e pensando melhor, sabe-se lá o porquê de eu pensar) me prendesse ao solo, impedindo minhas lagartas de rastejar um pouco mais adiante. Sem campo de visão, só poderia pensar que o mesmo acontecia aos meus parceiros, velhos de guerra (e sim, não apenas no sentido literal da palavra). Talvez essa força sobrenatural, transcendente, fosse um sinal de que nada disso deveria estar acontecendo. De que nada disso precisava ser feito. Nossas lagartas presas ao solo, meu trilhos inertes, e meus pares, de costas para mim, nenhuma reação. Todos fazíamos parte do maior exército da Terra, do comboio mais eficiente. Por quê?

Anos depois, ao purgatório, à fila do desmonte, a imagem e a verdade do que havia acontecido naquele dia insiste em não abandonar meu pobre e inverossímil cérebro de lata. Só um de nós consegue visualizar o nosso sofrimento, o nosso desespero, a nossa inutilidade repentina. Aquela foto decretou o meu fim, e o de todos os meus entes queridos. Entramos para a História (aquela com letra maiúscula, que infelizmente é a mais contada) como culpados, e pior - derrotados. E a desilusão aumenta ao pensar que a nossa derrota não se deu por motivos transcendentais, sobrenaturais e inexplicáveis. Estes seres inferiores, que insistem em dizer que deram vida à nossa raça, que nos obrigam a cometer e liderar os piores delitos já contados pela História com letra maiúscula, foi um destes seres, os seres humanos, e talvez o mais humano de todos que já passaram por este mundo, que nos imobilizou. Que nos deixou perplexos com tanta humanidade, um dos poucos atributos que não nos foi conferido.

Mas eu, eu não me interesso pelo que a História conta. E a minha história (essa sim, rebaixada a substantivo comum) também não interessa a ninguém. Resta-me agora, em meu metafórico leito de morte, aguardar pelo desmanche dos meus órgãos, na esperança de que, um dia, eles sejam reaproveitados em uma próxima geração, na qual talvez um de nós seja lembrado como herói.

(Texto escrito para aula de Produção de Narrativas Ficcionais da Faculdade de Letras/PUCRS)

1 comentários:

Graziela Belotto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.