
É curioso. Não me lembro por quais circunstâncias esbarrei em Saramago pela primeira vez. Não me recordo de uma pessoa específica me indicando, ou de alguma resenha que eu possa ter lido. Apenas lembro que eu o conhecia de nome, sabia da sua importância, e, veja só a sorte, havia um livro dele disponível para empréstimo na biblioteca.
"Ensaio Sobre A Cegueira", talvez sua obra-prima, foi o livro da minha iniciação. E eu sabia, ao terminar o primeiro parágrafo da obra, "Estou cego", ali eu sabia que a minha vida estava prestes a mudar.
Não pense que estou dramatizando. Se você não é estudante de Letras ou não se considera um amante da literatura, talvez o conceito de "paixão" por um livro ou um escritor possa ser muito vago pra você. É como aquela banda que você sabe que vai gostar pelos primeiros acordes, aquele filme com a cena de abertura impactante, aquela peça de teatro que te causa um impacto logo no primeiro ato. "Ensaio Sobre A Cegueira" é assim.
Devorei aquelas páginas com tamanha voracidade, como nunca antes havia feito com um romance. Já li livros de contos de Luis Fernando Verissimo e Rubem Fonseca em um dia, é verdade; já li "A Metamorfose" de cabo a rabo enquanto tomava um chá de banco no dia do alistamento militar, é verdade; mas nada, nada se compara à prosa de Saramago.
Depois do baque, do estrondo emocional causado com o primeiro "Ensaio", era hora de continuar. Creio que tenha me tornado um viciado àquela época. Quase em sequência, li "Ensaio Sobre A Lucidez" (a continuação, o final "inesperado", a vontade de chorar), "O Homem Duplicado" (e me identifiquei mais com Tertuliano do que com qualquer outro personagem real ou fictício que já tenha existido), "A Caverna" (o livro que tem dois finais, mas isso é outra história), "A Jangada de Pedra" (que me ensinou mais do que qualquer aula de Geografia e História que eu poderia ter no colégio), "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (missão quase impossível, romance denso, mas com um encerramento que só um autor da grandiosidade de Saramago consegue, que faz valer a pena o esforço), "As Intermitências da Morte" (o único dele que abrlhanta a minha estante, infelizmente), e "Todos Os Nomes" (provando que verossimilhança é um conceito muuuuito vago, mas isso também é outra história).
(Meu amor incondicional aos seus romances quase foi quebrado com "Memórial do Convento", meu karma eterno, que nunca conseguirei terminar.)
Lembro-me das aulas de literatura na Faculdade, nas quais eu só sabia falar de Saramago. Até meus textos literários (ou tentativas de) estavam se intoxicando com vírgulas, com falas intercaladas, com reflexões destoantes de um narrador que começa a puxar papo com quem o lê, até meu jeito de falar estava se tornando um pouco consonantal, alguns diziam. Aliás, é só ler o conto abaixo, "Futuro Imperfeito". Inspiração em Saramago aflorada.
Criei o twitter: @_saramago. Perfil que hoje tem mais de 10.000 followers, reúne uma compliação de frases retiradas de seus romances, citações, trechos de entrevistas, links para downloads dos livros, enfim, um perfil-homenagem (e não vamos questionar a questão legal/ilegal disso...) ao meu "mestre" (aliás, só me referia a ele assim, quando me perguntavam se eu era o Saramago de verdade. "O mestre".)
Recentemente, li "Caim". Já estava recuperado da overdose Saramaguiana, e fiz deste livro uma leitura devagar, lenta, reflexiva, quase como se este fosse o último livro de Saramago e fosse preciso aproveitar cada palavra, inferir sobre cada frase. Não queria estar certo sobre isso.
José Saramago me re-ensinou a sentir; a pensar. Creio que ele seja o meu primeiro ídolo, ídolo de verdade, a falecer. E claro, ainda há livros dele que eu não li, muito a se explorar. Mesmo assim, apenas o sentimento de que ele não está mais entre nós, pronto para dizer algo novo, pensar algo novo, para nos fazer refletir, dói. E encerrando (antes que o relato pessoal triplique de tamanho e fique mais incoerente do que já deve estar), segue o que Fernando Meirelles declarou hoje, sobre a morte de um dos maiores escritores de todos os tempos:
"Saramago era um homem lógico, dizia que a morte é simplesmente a diferença entre o estar aqui e já não mais estar. A lucidez naquele grau é um privilégio de poucos, não consigo escapar do clichê mas definitivamente o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego hoje."
Descanse em paz, mestre. Você merece.
2 comentários:
Devo dizer que senti a mesma coisa que você quando li "Ensaio Sobre a Cegueira".
Na realidade, o que foi tão dito me transportou para o dia em que comecei a lê-lo.
Foi uma experiência tão incomum que chego a marejar os olhos.
Só.
Eu sigo o perfil @_saramago e cheguei até aqui. Terminei na semana passada a leitura de Memorial do Convento e estou em estado de amor/paixão/ternura/complexidade e mais um montão de coisas que não consigo descrever. Saramago foi um grande mestre, um gênio. Quero continuar a ler suas obras, pois realmente elas transformam as nossas vidas.
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