6.7.10

Preâmbulo de uma História Inacabada

(Baseado em um texto que eu simplesmente não conseguia terminar. Feito em aula para uma atividade da cadeira de Produção de Narrativas Ficcionais - Faculdade de Letras/PUCRS - no mês passado.)

O mundo às vezes se mostra tão surreal quanto trágico. Em um dia desses que todos tendem a denominar ‘comum’, este mundo amanhecia repleto de um amarelo que quase fez Pedro sorrir. Mas não seria um desses sorrisos tão amarelos quanto o dia, essa máscara da boa falsa convivência que resolve todos os problemas e faz parecer que está tudo bem. Seria um sorriso esperançoso, talvez sem explicação aparente, talvez de missão cumprida, talvez porque simplesmente não faça diferença sorrir ou não, e então se decide sorrir como se decidiria acordar com o pé direito.

Mas Pedro não sorriu. Apenas voltou a atenção para o céu que acabara de acordar. As nuvens não cobriam o sol, mas pareciam cobrir todas as suas más lembranças, e todas as suas boas lembranças que também se tornam más justamente por serem apenas lembranças. Havia sido um daqueles dias em que ninguém reclama da chuva, e do vento, e do frio, e da vida. Mas Pedro, apesar de tudo, apesar do quase sorriso, tinha motivos para reclamar. Pedro havia passado a madrugada anterior tentando esquecer todos os dias em que falhou em tentar esquecer, e todos os dias em que a memória de um passado mal aproveitado o forçava a vista e o cegava, como esta luz do sol que faz as pessoas não reclamarem da vida. Ele, já na casa dos quarenta, idade em que se costuma descobrir o quão pouco se aproveitou, havia feito outra de suas grandes reflexões sobre a sua vida e sobre a sua atuação meramente coadjuvante nela. Em uma de suas pausas admirando a incômoda claridade, descobriu-se, de uma hora para outra, em uma de suas estranhas - porém comuns - epifanias, socialmente inapto a sentir saudade.

A vida, já tão citada neste texto, sempre cruel e com uma completa falta de sentido (justamente nos momentos em que mais ele se faz necessário), revelara a ele um dos seus piores segredos: o prazer só existe quando aliado à saudade, e todas as pessoas que já viveram nesse mundo viveram porque sentiam falta de alguma coisa. Mas Pedro, Pedro só sentia falta da saudade que se esquecera de sentir.

Suas boas lembranças, suas más lembranças? Nada disso trazia o torturante alívio, a massacrante e deliciosa sensação de saber que em algum lugar remoto, distante talvez, ele sabia que estava exatamente aonde deveria estar, mas que agora não está mais. De que em algum momento insignificante da sua vida insignificante ele havia sim, significado alguma coisa para alguém.

(Pedro era escritor. Passava os dias e as noites amassando folhas, gastando grafite, tinta de caneta. Perdendo tempo, os poucos chegados diziam. Quando saía com eles, Pedro tinha ideias que fugiam antes de serem registradas. Soltava palavras desconexas em guardanapos de bar, últimas páginas de cadernos, aplicativos de computador, uma série de novos documentos em branco.

Era um comprador compulsivo de blocos de anotação. Sobrevivia em meio a rimas ricas, a frases feitas, a rascunhos de uma vida sem histórias. Nada era mais prazeroso para Pedro do que escrever frustrações, destruir o coração de personagens fictícios inocentes, inventar o sofrimento de vidas inexistentes.

Pedro se tornara um especialista em sofrer a saudade de um tempo que não existiu.)

Naquele ensolarado dia, observando pela janela a rotina incansável das pessoas que por ali passavam, Pedro finalmente se deu conta de que nos seus quarenta anos de vida, não viveu. Já com um dos pés no parapeito, a cabeça para fora da janela, fazia um último esforço, ainda tentava responder a algumas perguntas: Quem vai sentir minha falta? E de quem eu sinto falta? E quem daria um fim apropriado à minha história?

Mas não conseguiu. E como a falsa esperança de um quase era ainda mais torturante do que a certeza de que tudo continuaria igual, a solução parecia tão óbvia quanto o desfecho desta história inacabada. Pedro, enfim, sorria.

2 comentários:

Lais disse...

i like to be here when i can :)

cintilante disse...

histórias inacabadas rulez. acho que vu usar essa desculpa pra deixar todos os meus textos sem fim. mwaha