2.8.10

Do Espelho

O cheiro de cigarro permanecia em suas mãos. Seus olhos se dirigiam à porta de entrada. Nada. O que ele poderia fazer naquela situação? Voltar para casa e escrever? Não. Seria um atestado de derrota. Uma confirmação do que ele sempre soube, mas só pôde decretar agora: não nascera para amar. O problema, o grande problema, é que a consciência nunca estava limpa. Nunca estava leve. Permanecia sempre repleta de pensamentos, hipóteses, dúvidas, e alguma fumaça de cigarro. Sem mencionar este novo sentimento de culpa, que o consumia e de certa forma o embriagava mais do que qualquer bebida que ele viesse a pedir. E se ele não tivesse feito o que fez? E se apenas escrevesse? Enquanto riscava o fósforo, voltou novamente o olhar para a porta de entrada. Um casal entrou de mãos dadas e sentou à sua frente. Estavam felizes. Pareciam felizes. Então pessoas felizes existem mesmo?

Nada. Entre o cigarro e a bebida, um vazio de tamanho infinito. Não bastasse tudo que havia acontecido, agora se encontrava imerso em clichês. Figuras de linguagem assombradas o perturbavam durante o sono. Detestava qualquer indireta. Não tinha mais paciência para ler as entrelinhas. Não tinha mais paciência para nada. Nada. Exatamente isso que entrava por aquela porta. Nada. Um nada que não o completava. Já teve tudo nas mãos e agora não havia mais nada. Nem de reclamar das entrelinhas ele tinha direito. Não havia entrelinhas. Nem as linhas da própria mão ele reconhecia. Não reconhecia sequer à sua própria figura. E estranhou que tal sentimento, de uma semana para outra, já se tornara familiar.

A banda começava a tocar as músicas dos Beatles enquanto chegavam outros casais. Moveu-se para o balcão ao fundo do bar, foi solicitado a liberar uma mesa para um casal que havia chegado. Uma mesa “a dois”. O fato de não estar a dois, e de talvez nunca mais estar a dois deveria arrepiá-lo por inteiro, mas seu semblante parecia o de alguém que rapidamente se acostumara a esta nova situação. Alargou a gravata e cheirou a gola do terno que até pouco tempo atrás parecia ter cheiro de recém comprado: cigarro.

O balcão nada mais era do que uma sequência de tábuas irregulares que começava na parede lateral próximo à entrada e percorria toda a margem do bar até chegar aos fundos, local onde os solitários precisavam ficar - para desocupar as mesas para os casais felizes - e os otimistas de meia idade procuravam companhia fútil para as últimas horas da madrugada. Havia um espelho sobre este balcão, que também ocupava toda a parede dos fundos, criando uma desoladora sensação de que o local era duas vezes maior, como se isto fosse um ponto positivo. Como se pudesse enxergar através do espelho à sua frente a larga silhueta da sua consciência sentada ao seu lado com um copo na mão, acendeu outro cigarro. Estava bêbado. Bêbado, derrotado, e com a consciência pesada de um vazio sem tamanho. Não nascera para amar. Era isso. Tudo convergia para isso. Tudo já estava se encaminhando para isso há bastante tempo. Mas o pior, pior que tudo, pior do que o nada, pior do que pensamentos, hipóteses, dúvidas, lembranças, pior do que a culpa e pior do que o casal estúpido e estupidamente feliz que estava à sua frente e que ele ainda não conseguira esquecer, o pior de tudo era que o cheiro de cigarro, esse sim, permanecia em suas mãos.

A banda tentava preencher o vazio do bar com as suas canções. Talvez fosse hora de voltar para casa e escrever. O tempo estava péssimo, como sempre acontece quando se está com o coração partido. E imerso em clichês. Já era dia, mas não havia sol. E aquele casal, o casal que havia entrado de mãos dadas, agora se preparava para sair. E continuavam felizes. Pareciam felizes. Então as pessoas felizes existem? Existem. E lá estavam saindo duas delas. Saíram sorridentes pela rua, e o tempo ruim não fez a menor diferença nas suas vidas. “É dia, meu amor, é dia”.

(Curiosa espécie essa, das pessoas felizes. Devem viver uma vida sem emoção. Sem consciência. Sem culpa.)

E a banda continuava tocando as músicas dos Beatles. Amanhecia. Do espelho, reflexos distorcidos de rostos cinematograficamente escondidos pela fumaça. De sorrisos irremediavelmente forçados pela noite. Ou pela bebida. Nas mesas, o silêncio se fazia presente, dentro de cada pessoa. E não só a música, mas todos os sons eram abafados por este silêncio. Era inevitável. Dentre moribundos, desistentes e pessoas felizes, a pintura se fez completa. Lá fora, o sol não ameaçava dar as caras. Esqueceu-se o valor das palavras. Por que escrever, afinal de contas? Tudo é tão trivial. Tudo é tão incompleto. E todos aqueles olhares, e todos aqueles sorrisos, toda aquela fumaça, apenas uma bela e triste representação da felicidade.

E eu, que me julgava tão competente em criar representações, enxergo-me neste bar, perdido. O espelho em minha frente reflete um clichê humano, uma imagem que não vale mais que mil palavras. A imagem de um homem que não vale nada. Uma personagem de uma tragédia tão banal que não merece sequer a catarse da audiência. Era inevitável.

Talvez devesse voltar, tirar esse cheiro de cigarro das mãos, essa roupa extremamente desconfortável, e escrever. Por que antes era fácil. Parecia fácil. Eu parecia feliz. Mas escrever não me alegra mais. Nem escrever, nem a bebida, nem o cigarro. E principalmente, não me alegram mais as músicas dos Beatles. Lembram você.


(Texto reescrito para Oficina de Criação Literária, semestre passado na PUCRS. Meu novo conto favorito. "Pedaços" dele estão em outras postagens por aqui.)

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